llllllllll Precisamos falar sobre cerveja! A “jogada” por trás da latinha de 269 ml.
Dia desses no
mercado, procurando minha marca de cerveja predileta, notei que simplesmente
não tinha o precioso líquido em latinhas de 350ml. Só em latinhas de 269ml. Quem
me conhece sabe que não consumo esse tamanho do produto. Questionei a ausência
da minha predileção a um repositor que estava por perto e a resposta foi
contundente: Não temos as de 350 ml. Não compramos desta vez! Preferimos as de
269ml, pois, “sai bem mais”.
Você já parou para pensar como a indústria da cerveja adora se reinventar? Um dos melhores exemplos disso é o lançamento dessa famosa latinha de 269 ml. Mas será que ela foi criada apenas para facilitar a sua vida, como te vendem, ou tem um “golpe de mestre” de marketing por trás disso?
·
O discurso oficial
As marcas venderam a ideia com
frases de impacto:
“A latinha perfeita para beber
sempre gelada.”
“Mais prática, mais rápida para
gelar! Logo, mais moderna.”
Soa bem, não é? Quem não gosta de uma cerveja que se mantém na temperatura ideal até o último gole?
· A real estratégia
A indústria percebeu que poderia reduzir a quantidade e, ainda assim, aumentar a margem de lucro.
É simples: O preço da latinha de 269 ml parece mais em conta, mas quando você faz as contas por ml, quase sempre o líquido acaba saindo mais caro que o da tradicional latinha de 350 ml.
Em outras palavras: você acaba pagando mais por menos.
·
O efeito psicológico
Essa foi a jogada genial: brincar
com a percepção do consumidor.
O preço “menorzinho” dá a sensação
de economia.
O formato menor traz um toque de
sofisticação, quase de exclusividade.
E ainda abre espaço para novas narrativas de consumo: “sem desperdício”, “do tamanho certo”, “premium”.
·
Marketing que reinventa hábitos
No final das contas, a latinha de 269 ml não é apenas uma
embalagem diferente. Ela é um exemplo de marketing bem-sucedido, porque não
vende só cerveja… vende uma ideia.
A ideia de que você está
consumindo melhor, quando na verdade está consumindo menos e pagando mais.
O mais curioso? A maioria das
pessoas compra essa proposta sem nem perceber a manobra. (lembra o atendente?: “sai
bem mais”)
Prova cabal de que o marketing não
vende produtos, e sim percepções.
E a latinha de 269 ml é o brinde
perfeito dessa história: pequena no tamanho, mas gigante na estratégia.
A verdadeira genialidade da estratégia não esta apenas em oferecer uma lata menor. O grande truque é convencer milhões de consumidores de que essa lata menor é, na realidade, uma ideia muito mais inteligente. E assim fizeram. E com sucesso!
· Brasileiro malandro? Sim mas não dessa vez.
Na verdade, a ideia da latinha de
269 ml começou fora do Brasil e depois foi adaptada para o nosso mercado.
Historicamente, esse tamanho tem suas raízes principalmente nos Estados Unidos, onde a lata de 8 onças fluidas (8 fl oz) corresponde a cerca de 236 ml e a de 9 onças fluidas (9 fl oz) fica em torno de 266 ml. Em alguns lugares, especialmente para cervejas premium e edições especiais, recipientes nesse tamanho já eram bastante comuns.
No Brasil, no entanto, a história tomou um rumo diferente.
A partir dos anos 2000, grandes cervejarias, como a Ambev, começaram a investir pesado na lata de 269 ml para marcas como Brahma, Skol e Antarctica. Depois, outras fabricantes, como Heineken e o Grupo Petrópolis, também entraram na dança.
O mais interessante é que o Brasil se destacou como um dos países que mais explorou comercialmente esse formato. Aqui, a lata de 269 ml não é apenas uma opção de embalagem, mas sim parte de uma estratégia de mercado que se baseia em alguns pilares:
· Preço de entrada mais acessível: isso
facilita a compra por impulso.
· Maior rentabilidade: o preço por litro
geralmente é mais alto do que o da lata de 350 ml.
· Controle do consumo: reforça a ideia de
"na medida certa".
· Segmentação: ajuda a diferenciar linhas
premium e ocasiões de consumo.
· Redução de custos logísticos: uma pequena economia de alumínio por unidade, multiplicada por milhões de latas, resulta em uma redução significativa de custos.
Esse último ponto muitas vezes passa despercebido. Uma redução de cerca de 80 ml por lata pode parecer insignificante para o consumidor (não pra mim, que fique bem claro) mas, quando uma cervejaria vende bilhões de unidades por ano, isso se traduz em milhares de toneladas de alumínio, milhões de litros de cerveja e um impacto financeiro enorme.
Essa estratégia se encaixa em um conceito conhecido no marketing e na economia como downsizing ou shrinkflation (reduflação, no português BR). A diferença é que, enquanto a shrinkflation normalmente diminui a quantidade de um produto existente sem chamar atenção, a lata de 269 ml é uma abordagem mais intencional e visível que traz uma narrativa de praticidade e qualidade (mesmo porque tentar esconder a diferença de tamanho das latinhas para um cervejeiro, beira o impossível). Ao invés de o consumidor sentir que está perdendo algo, começou a perceber valor na nova embalagem.
E não, eu não comprei a famigerada
latinha de 269ml da minha cerveja predileta! Fui buscá-la em outro mercado.

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